Programação
| Dia | Título da palestra/atividade | Palestrante |
|---|---|---|
| 21/03/2026 | Abertura | Maria Helena Budal |
| 21/03/2026 | Envelhecer com sentido: um olhar inspirado em Viktor Frankl | Luci Alcantara |
| 21/03/2026 | Menopausa: crise ou chamado ao sentido? | Marcilene Sitta |
| 21/03/2026 | Mesa-redonda: O vazio existencial na contemporaneidade | Daniella Correia e Sávio Emmerick |
| 21/03/2026 | Clínica com crianças: a Logoterapia enriquecendo a infância | Thaislane Cruz |
| 21/03/2026 | O pré-natal psicológico e a Logoterapia: um diálogo de aplicabilidade | Nathália Pujol |
| 21/03/2026 | O sentido de pertencer: o filho do coração e a experiência de ser para alguém | Flavia Caroline Nunes Agostinho |
| 21/03/2026 | Violência doméstica e reposicionamento existencial: contribuições da Logoterapia | Patrícia Frogel |
| 21/03/2026 | Roda de conversa: Uma vida com sentido | Maria Helena Budal |
| 21/03/2026 | Palestra principal: Do vazio existencial às possibilidades de iluminar o sentido na vida | Solange Freitas |
| 22/03/2026 | Mensagem inicial / reflexão | Maria Helena Budal |
| 22/03/2026 | Psicotrauma e Logoterapia: um olhar integrativo do sofrimento ao crescimento | Rúbens Cieslak |
| 22/03/2026 | Narcotização: um sintoma do vazio, um potencial de sentido | Filipe De Veer |
| 22/03/2026 | Vivência em grupo: reflexões para nossa vida, o vazio e o sentido na pessoa do logoterapeuta | Marcilene Sitta e Patrícia Frogel |
| 22/03/2026 | Encerramento | Maria Helena Budal |

Como foi o Evento
Nos dias 21 e 22 de março de 2026, a Escola de Logoterapia e Análise Existencial realizou o seu I Seminário de Produção Acadêmica de Logoterapia e Análise Existencial, um encontro pensado para reunir estudo, clínica, partilha e comunidade em torno de uma das grandes questões da existência humana: como iluminar possibilidades de sentido diante do vazio existencial?
Com programação presencial em Curitiba e participação online ao vivo, o seminário nasceu como espaço de aprofundamento e expressão acadêmica, mas rapidamente se revelou também como um lugar de encontro humano. Professores, alunos, psicólogos, logoterapeutas e participantes interessados na obra de Viktor Frankl puderam acompanhar apresentações que aproximaram a teoria da vida concreta: envelhecimento, menopausa, infância, gestação, adoção, violência doméstica, trauma, dependências, contemporaneidade e a própria pessoa do logoterapeuta.
Desde a abertura, conduzida por Maria Helena Budal, ficou claro que a proposta não era apenas apresentar conteúdos. O evento foi introduzido como uma realização comunitária, fruto de trajetórias, estudos, trabalhos de conclusão, pesquisas e experiências clínicas amadurecidas ao longo do tempo. A Logoterapia apareceu, ali, não como uma teoria distante, mas como um modo de olhar para a vida e para as pessoas com coragem, cuidado e responsabilidade. O seminário começava afirmando que falar de sentido exige presença: presença diante da própria tarefa, diante do outro e diante dos valores que pedem realização.
A primeira apresentação temática, “Envelhecer com sentido: um olhar inspirado em Viktor Frankl”, com Luci Alcantara, abriu o percurso refletindo sobre o envelhecimento em uma sociedade marcada pela produtividade, pela valorização da juventude e pelo risco de descarte simbólico da pessoa idosa. A fala trouxe a percepção de que, quando o tempo de vida aumenta, mas o reconhecimento de valor diminui, o vazio existencial pode atravessar essa etapa da existência. A contribuição da Logoterapia foi apresentada como convite a olhar o idoso para além do declínio biológico, reconhecendo sua história, seus vínculos, sua liberdade possível e sua capacidade permanente de realizar valores.
Na sequência, Marcilene Sitta conduziu a reflexão “Menopausa: crise ou chamado ao sentido?”, abordando uma fase da vida feminina muitas vezes reduzida ao corpo ou silenciada socialmente. A apresentação ampliou o olhar sobre o climatério e a menopausa, considerando transformações biológicas, psíquicas, sociais e noéticas. A força da fala esteve em mostrar que a mulher não pode ser fragmentada no cuidado: não é possível acolher apenas o sintoma, ignorando a história, os valores, o sofrimento e as novas possibilidades que essa etapa pode inaugurar. A menopausa foi apresentada como travessia exigente, mas também como oportunidade de reposicionamento diante da própria vida.
A mesa-redonda “O vazio existencial na contemporaneidade”, com Daniella Correia e Sávio Emmerick, trouxe uma leitura profunda do nosso tempo. Daniella refletiu sobre a saturação da vida contemporânea, marcada por excesso de demandas, urgências, mensagens, tarefas e expectativas. Sua imagem da “pia entupida com a torneira aberta” traduziu com precisão a experiência de muitas pessoas que se sentem cheias de atividades, mas não necessariamente preenchidas de sentido. Sávio complementou a reflexão olhando para a falta: a perda de referências, a fragilização das tradições e o desafio de assumir a liberdade sem se perder no vazio. Juntas, as falas mostraram que a Logoterapia continua atual justamente porque recoloca a pergunta essencial: não apenas o que estamos fazendo, mas para onde estamos indo e a que valores estamos respondendo.
Em “Clínica com crianças: a Logoterapia enriquecendo a infância”, Thaislane Cruz levou o público para o campo delicado da infância. A apresentação chamou atenção para o risco de reduzir a criança a diagnósticos, sintomas ou comportamentos, esquecendo sua condição de pessoa em desenvolvimento, aberta ao mundo dos valores. A clínica infantil, sob a luz da Logoterapia, foi apresentada como espaço de encontro, brincadeira, presença e descoberta. A criança, ainda que em amadurecimento psicofísico, é capaz de vivenciar valores e realizar sentido de acordo com sua etapa de desenvolvimento. Nesse horizonte, o terapeuta não é apenas alguém que aplica técnicas, mas alguém que comunica valor pela escuta, pelo vínculo e pela forma como se inclina diante da criança.
À tarde, Nathália Pujol apresentou “O pré-natal psicológico e a Logoterapia: um diálogo de aplicabilidade”, aproximando a Logoterapia da psicologia perinatal. A fala destacou duas premissas centrais: toda gestação é única, irrepetível e singular; e há possibilidades de sentido que podem ser encontradas mesmo nos desafios da maternidade. A apresentação acolheu a complexidade da gestação, sem romantizá-la nem reduzi-la ao sofrimento. Transformações corporais, medos, perdas, culpa, expectativas sociais e rede de apoio foram abordados como dimensões importantes do cuidado. A Logoterapia apareceu como possibilidade de ampliar o olhar da gestante, ajudando-a a perguntar: o que a vida me pede agora, nesta situação concreta?
Na sequência, Flavia Caroline Nunes Agostinho apresentou “O sentido de pertencer: o filho do coração e a experiência de ser para alguém”. A adoção foi tratada com delicadeza, não como tema abstrato, mas como realidade existencial atravessada por história, vínculo, origem e pertencimento. A fala mostrou que a família adotiva também vive uma forma de gestação: uma gestação emocional, simbólica e relacional. Ao considerar a perspectiva do filho adotivo, a apresentação valorizou a necessidade de integrar passado e presente, origem biológica e família adotiva, sem determinismos. Pertencer, nesse contexto, não significa apagar a história, mas encontrar um lugar onde a própria narrativa possa ser acolhida e ressignificada com sentido.
Patrícia Frogel trouxe um dos temas mais sensíveis do seminário em “Violência doméstica e reposicionamento existencial: contribuições da Logoterapia”. A apresentação nomeou formas de violência, especialmente no contexto conjugal, e mostrou como a experiência abusiva pode atingir corpo, psiquismo, relações, liberdade e percepção de valor pessoal. Ao mesmo tempo, a fala não permaneceu apenas na dor: buscou iluminar possibilidades de saída, consciência e reconstrução. A contribuição logoterapêutica apareceu na ideia de reposicionamento existencial, isto é, na possibilidade de a mulher reconhecer, mesmo em uma situação profundamente restritiva, alguma fresta de liberdade interior e algum caminho concreto para recuperar a própria vida.
A roda de conversa “Uma vida com sentido: como a vida e obra de Viktor Frankl iluminam ricas possibilidades ao viver”, conduzida por Maria Helena Budal, retomou a obra de Frankl como experiência viva. A reflexão trouxe elementos de “Em busca de sentido”, especialmente a liberdade humana diante das circunstâncias e a responsabilidade diante da vida. Um dos pontos mais fortes foi a imagem da “fresta”: o logoterapeuta não força aberturas, não cria artificialmente o sentido para o outro, mas aprende a perceber os espaços possíveis e a iluminá-los para que a pessoa possa responder. A roda reforçou que a Logoterapia é, antes de tudo, uma psicoterapia antropológica, que amplia a visão da pessoa sobre quem ela é e diante de que ou de quem está.
A palestra principal do sábado, “Do vazio existencial às possibilidades de iluminar o sentido na vida”, com Solange Freitas, aprofundou o eixo central do evento. A fala situou o vazio existencial como uma marca do nosso tempo, especialmente quando a pessoa passa a desacreditar de si, da vida e da possibilidade de responder ao mundo. Solange destacou que o sentido não é algo abstrato ou distante, mas se realiza por meio dos valores. Nesse caminho, trouxe a importância do otimismo trágico: não uma esperança ingênua, mas a capacidade de reconhecer a imperfeição do mundo e ainda assim perguntar o que pode ser aliviado, apoiado, melhorado ou servido. A palestra foi uma síntese inspiradora da proposta frankliana: os valores estão no mundo, pedindo realização, e nos convocam a sair de nós mesmos em direção a algo ou alguém.
O domingo começou com uma mensagem inicial de Maria Helena Budal, que retomou a experiência do encontro e a importância de confiar nos vínculos humanos. Após um primeiro dia intenso, a reflexão ressaltou que não apenas o sofrimento desafia; as realizações também exigem coragem, responsabilidade e disponibilidade. A vida, em suas dores e alegrias, apresenta possibilidades que podem permanecer não vividas quando não damos o passo necessário. Essa abertura preparou o grupo para uma manhã de integração entre teoria, clínica e vivência.
Rúbens Cieslak apresentou “Psicotrauma e Logoterapia: um olhar integrativo do sofrimento ao crescimento”, conectando experiências traumáticas, corpo, memória, sofrimento e possibilidade de crescimento. A fala reconheceu que o trauma não é apenas uma lembrança psicológica, mas pode ficar inscrito no corpo e congelar a pessoa em respostas de ameaça, defesa ou paralisação. Ao aproximar recursos técnicos de cuidado ao trauma da visão integral da Logoterapia, a apresentação mostrou que integrar não é misturar abordagens sem critério, mas utilizar recursos bem fundamentados mantendo a visão frankliana de pessoa: corpo, alma, espírito e relações sociais. O centro da reflexão reforçou que a pessoa merece ser olhada em sua totalidade.
Em “Narcotização, um sintoma do vazio, um potencial de sentido!”, Filipe De Veer ampliou a compreensão das anestesias contemporâneas. A partir da dependência química, mas indo além dela, a apresentação abordou drogas, pornografia, apostas, compras por impulso, redes sociais, ativismo e excesso de trabalho como possíveis formas de fuga de si mesmo, da responsabilidade e da pergunta pelo sentido. A narcotização foi apresentada como tentativa de anestesiar o cansaço, o vazio ou a angústia, mas também como sinal clínico importante: aquilo que anestesia pode revelar onde a existência está pedindo atenção. A saída não foi colocada em termos moralistas, mas existenciais: recuperar hierarquia de valores, aprender a dizer não, assumir escolhas concretas e reacender os faróis de sentido.
A vivência em grupo “Reflexões para nossa vida: o vazio e o sentido na pessoa do logoterapeuta”, conduzida por Marcilene Sitta, Patrícia Frogel e Maria Helena Budal, levou os participantes a olharem para a própria história. A proposta do “relevo do sentido” convidou cada pessoa a marcar experiências de dor e alegria, percebendo que o sentido nem sempre acompanha a intensidade emocional de modo previsível. Uma vivência dolorosa pode carregar valores profundos; uma vivência alegre pode revelar tarefas, vínculos e possibilidades. O exercício deslocou a reflexão do campo apenas intelectual para a experiência pessoal, lembrando que o logoterapeuta também precisa olhar para sua própria vida, seu vazio, seus valores e sua forma de estar a serviço do humano.
O encerramento, novamente com Maria Helena Budal, devolveu o seminário ao seu ponto de partida: a comunidade. Ao agradecer a presença dos participantes, inclusive muitos vindos de fora da Escola, Maria Helena reforçou que caminhar junto é parte essencial do sentido vivido ali. O evento reuniu 63 inscrições, entre participação presencial e online, número especialmente significativo para uma escola ainda jovem, mas já marcada por vínculos, confiança e compromisso formativo.
Ao final dos dois dias, o seminário deixou uma mensagem clara: a Logoterapia e a Análise Existencial têm muito a oferecer à clínica, à pesquisa, à formação humana e à vida cotidiana. O vazio existencial não foi tratado como tema abstrato, mas como realidade que aparece no envelhecer, no corpo feminino, na infância, na maternidade, na adoção, na violência, no trauma, nas dependências e na pressa do mundo contemporâneo. Em cada apresentação, a pergunta pelo sentido encontrou uma situação concreta. E, em cada situação concreta, apareceu novamente a possibilidade de responder à vida com valores, liberdade e responsabilidade.
Mais do que um evento acadêmico, o I Seminário de Produção Acadêmica de Logoterapia e Análise Existencial foi uma experiência de comunidade fiel ao legado de Viktor Frankl: olhar para a dor sem reduzi-la, olhar para a pessoa sem fragmentá-la e olhar para a vida buscando, com coragem e humildade, as possibilidades de sentido que ainda pedem realização.

